O materialismo como tentação na vida paroquial

Em minha caminhada católica, vivi ontem uma experiência que me deixou entristecido. Ao acompanhar uma etapa de formação na paróquia, percebi sinais de algo que o Evangelho sempre nos adverte: a tentação de levar para dentro da vida eclesial a mesma lógica do mundo — a lógica da disputa, do prestígio, do “lugar”, da imagem e, às vezes, do interesse material.

Digo isso com humildade e prudência, porque sei que posso me enganar nas minhas impressões. Ainda assim, não posso ignorar o que isso provocou em mim: uma sensação de que, em certos ambientes, quem busca servir com sinceridade e profundidade pode acabar desanimado quando encontra um clima de competição, murmuração e pequenas rivalidades. E isso fere, porque a Igreja deveria ser, antes de tudo, escola de caridade e de santidade.

O Catecismo nos lembra que a caridade exige que evitemos o julgamento temerário, a detração e a calúnia (CIC 2477 – 2479). Por isso, ao invés de apontar culpados, prefiro reconhecer o combate espiritual que todos enfrentamos. A tentação do ego e do reconhecimento não está “apenas nos outros”: ela também pode morar em mim. E é justamente aí que o Evangelho se torna concreto.

A paróquia é lugar de transcendência em Deus: oração, sacramentos, formação, serviço e comunhão. Isso não significa falta de alegria, nem rigidez sem amor. Significa, porém, que nossa vida comunitária precisa ser purificada de tudo o que transforma serviço em palco e missão em autopromoção. Quando a lógica do aplauso e da aparência ganha espaço, a alma se dispersa e a caridade esfria.

Nesse mesmo espírito de fidelidade, recordo algo objetivo da nossa tradição: os sacramentais (como a água benta) têm sentido porque a Igreja os abençoa e os propõe como sinais que nos dispõem a receber a graça (CIC 1667 – 1670). Se não houver água benta, muitas vezes o mais prudente é simplesmente omitir o gesto, em vez de criar substitutos que confundam os fiéis. A clareza ajuda a fé simples do povo.

Diante de tudo isso, o que fazer? Antes de qualquer coisa: rezar, calar o coração diante de Deus, pedir humildade e procurar ver a própria conversão. Depois, buscar meios concretos e cristãos: diálogo respeitoso, correção fraterna quando couber, direção espiritual, e uma decisão firme de perseverar no bem sem entrar no jogo das disputas.

O Sermão da Montanha continua sendo o nosso norte (Mt 5–7). Ele não nos autoriza a desprezar ninguém; ele nos chama a ser pobres de espírito, mansos, misericordiosos, puros de coração e pacificadores. E, ao mesmo tempo, nos lembra que o caminho é exigente — não para nos lançar no desespero, mas para nos manter vigilantes e cheios de esperança.

Enquanto estamos vivos, há tempo: tempo de conversão, de cura, de crescimento e de santificação. Peçamos a graça de sermos morada do Senhor, carregando nossa cruz com amor, sem perder a caridade, e ajudando nossos irmãos a caminhar também.

Que Deus abençoe a todos.

Rio de Janeiro, RJ, 26 de janeiro de 2026.

Antonio C Fernandes S F

Em Cristo, morrer é viver!

Padre Ferdinando Capra costumava dizer: “Em Cristo, morrer é viver!”.

Com grande amor, educou-nos na fé, e nos deixou um precioso legado: o blog (https://comentariosbiblicospadrefernandocapra.blogspot.com/?m=0) e os vídeos do seu canal (https://www.youtube.com/@ferdinandocapra).

Hoje, confiamos sua alma à infinita misericórdia de Deus: dai-lhe, Senhor, o descanso eterno, e brilhe para ele a vossa luz.

“Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.” (Jo 11,25)

Minha solidariedade fraterna a todos os irmãos e irmãs da Paróquia São Paulo Apóstolo.

Rio de Janeiro, 12 de outubro de 2025.

Antonio Carlos Fernandes da Silva Filho

Pilares da Fé

O mundo nos envolve de tal maneira que muitas vezes nos impede de perceber o que é essencial. É precisamente por isso que a fé se revela como a maior graça concedida por Deus. Como nos recorda o próprio Cristo:

“Jesus lhe respondeu: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).

A nossa caminhada cristã se sustenta sobre dois pilares: o consolo diário que brota da misericórdia divina, que nos permite aceitar que somos constantemente perdoados por meio da confissão, e a esperança firme de que Cristo, ao vencer a morte, nos abriu para sempre as portas da vida eterna.

Precisamos ter fé de que nunca estamos sozinhos, pois o Deus muitas vezes esquecido, o Espírito Santo, sempre nos conduz e protege. A verdadeira transcendência com o Pai nasce dentro de nós, no mais íntimo de nossos corações. Por isso, tudo o que sentimos, inclusive as nossas cruzes, pode e deve ser ofertado a Deus como prova do nosso amor.

Como nos ensina o nosso amado Padre Capra, Jesus, com sua própria vida, nos mostrou que obedecer à vontade de Deus é o caminho seguro para a verdadeira glória: participar da vida eterna junto d’Ele.

Rio, 9 de agosto de 2025.

Antonio C. Fernandes S. F.

O Cristo

Compartilho algumas reflexões de Luiz Paulo Horta, a fim de nos lembrarmos de quem é Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso melhor Amigo e destino de todo o nosso amor e contemplação. Meus irmãos, reflitam! A quem vocês estão servindo?!

A vida na comunidade paroquial é para amar, contemplar e louvar, mas não se trata de lugar para se envolver em jogos de poder, afastar, isolar, humilhar, obter lucro etc. Devemos estar sempre vigilantes para nos defender dos lobos que insistem em estar entre nós. Isso não é algo novo, pois, desde o cristianismo primitivo, convivemos com esses focos de tumor em nossa comunidade. Nos conforta saber que o mal nunca vencerá!

Jesus é silencioso e compassivo. Nosso Senhor constantemente nos ensina a não chamar a atenção, não vestir roupas vistosas e não ser egoísta. Sigamos o exemplo do Cristo, de seu Amor pelos irmãos e pelo Pai. Ainda há tempo de alcançar nossa salvação e evitar nossa condenação. Reflitamos sobre os trechos abaixo, a fim de que o Espírito Santo nos fortaleça no caminho de sermos instrumentos do Bem e não do mal.

“Mas a presença do Cristo entre aquelas multidões compostas, a princípio, só de pessoas humildes, não é um rosário de milagres. Ele não faz milagre a qualquer hora, ou simplesmente porque alguém pede. Pelo contrário, em muitos casos ele esconde o milagre; manda que o beneficiário não conte a ninguém o que lhe aconteceu.” (2011:203)

“Jesus Cristo deixa os seus sinais, mas não aparece de modo estrondoso; como se quisesse dizer: ‘Eu não vou violar a sua liberdade com uma demonstração incontestável; quem tem olhos para ver, veja; quem tem ouvidos para ouvir, ouça.’” (2011:204)

“‘Bem-aventurados’ quer dizer ‘felizes’. O Cristo está dando uma receita de felicidade, não de tristeza. E que receita é essa? Que você terá acesso a todos os bens do mundo, que você vai ‘herdar a terra’, na medida em que abrir a mão crispada com que tentamos nos apossar de tudo, garantir tudo, ter poder sobre tudo. Nesse sentido é que o Evangelho […] significa uma revolução, porque inverte as prioridades do ‘mundo’. O que o Evangelho chama de ‘mundo’ […] é a rede de interesses que forja o dia a dia das sociedades, a luta pelo poder e pelo dinheiro, o desejo de dominar, de transformar o prazer individual em regra universal. São Francisco de Assis, mais do que ninguém, entendeu esta lição do Evangelho: se você abraça a verdadeira pobreza, longe de ter perdido tudo, na verdade ganhou o mundo inteiro, porque a sua alma se liberta.

[…] Por isso é que a primeira bem-aventurança se refere aos ‘pobres de espírito’ — aqueles que possuem as coisas como se não as possuíssem, que usufruem os bens deste mundo sem se deixarem aprisionar por eles, sem se tornarem escravos dos desejos, vassalos das paixões.

[…] Esta é a revolução do Cristo. E para seguir nessas águas temos que descobrir em nós uma nova criatura, soterrada sob séculos de conformismo e de egoísmo. Este é o caminho do Reino.

Impossível? Mas o Reino não é uma coisa estática, como explicou o próprio Cristo, em algumas de suas mais belas parábolas. Por exemplo: ‘O Reino dos Céus é comparável ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha e faz fermentar toda a massa.’

O fermento na massa: assim já foi descrito, muitas vezes, o poder misterioso da Palavra.” (2011:209-211)

HORTA, Luiz Paulo. A Bíblia: Um Diário de Leitura. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

Confiança em Deus

Nossa partilha de hoje será sobre confiança, ou melhor, no que ou em quem devemos confiar. Confiar somente em nós mesmos, no próximo ou em bens materiais, constantemente, leva-nos a um destino certo: a dor e o sofrimento. De acordo com as Escrituras, somente em Deus devemos confiar, a fim de que nossa vida reflita, plenamente, esse amor recebido do Pai.

Ainda que existam irmãos e irmãs de boa vontade, todos são falhos e frágeis, características inerentes à nossa condição humana. A traição de Judas e a negação de São Pedro são bons exemplos. O profeta Jeremias adverte:

“Maldito o homem que confia em outro homem, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor!” (Jeremias 17,5)

Isso não significa que devemos viver desamparados, desconfiados ou isolados, mas sim que nossa confiança última não pode estar em mãos humanas. Devemos amar e perdoar o próximo, mas com a consciência de que só Deus é imutável e fiel.

Outro grande erro é confiar apenas em si, acreditando que nossa força e inteligência são suficientes para guiar nossa vida. A soberba espiritual e a ilusão da autossuficiência convergem para uma falsa independência, afastando-nos da graça de Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo alerta:

“Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (São João 15,5)

Vários foram os reis e poderosos que caíram porque confiaram em sua própria força. Nossa verdadeira grandeza está no amor de Deus, pois somente Ele nos conhece verdadeiramente e pode iluminar nosso caminho.

O mundo constantemente nos ilude, fazendo-nos crer que a segurança está no dinheiro, no poder, no status etc. No entanto, tudo isso é passageiro. Mais uma vez, Nosso Senhor alerta:

“Não ajunteis para vós tesou­ros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam.” (São Mateus 6,19-20)

A única riqueza verdadeira é a amizade com Deus, por isso devemos abrir o nosso coração para receber o seu amor.

Ao longo da vida, tudo pode falhar. Pessoas nos decepcionam, nossa força se esgota e os bens materiais se dissipam. Mas Deus permanece o mesmo, ontem, hoje e sempre. Ele é a Rocha inabalável, o refúgio seguro em meio às tempestades da vida.

“Que teu coração deposite toda a sua confiança no Senhor! Não te firmes em tua própria sabedoria!” (Provérbios 3,5)

Se colocarmos nossa confiança somente em Deus, Ele nos sustentará, nos conduzirá e nos dará paz, independentemente das circunstâncias. Que nossa oração diária seja como a do salmista:

“Só em Deus repousa minha alma, só dele me vem a salvação. Só ele é meu rochedo, minha salvação; minha fortaleza: jamais vacilarei.” (Salmo 61,2-3)

Sejamos fontes de iluminação divina para nossos irmãos e irmãs, a fim de que essa sede do amor de Deus seja o único desejo de nossos corações.

Confiemos, pois, no Senhor! Ele jamais decepciona!

Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2025.

Antonio C Fernandes S F

Confiança e Fé em Tempos de Provação

Não nos esqueçamos que Deus está agindo em nossas vidas e sempre para o bem, mesmo quando não percebemos isso.

Algo de bom resultará, por exemplo, de uma doença: aumento de amor por Deus, reconhecimento do milagre diário de estar com saúde, humildade em relação aos planos de Deus, aproximação de Cristo e de sua Igreja, entre outros benefícios.

É nessas horas que precisamos estar felizes por poder recorrer a Deus.

A única certeza que temos é que tudo ficará bem. Peçamos por nossos irmãos, em cada oração ao longo do dia.

Deus abençoe e acalme o coração de todos. Nossa Mãe está intercedendo por nós. Paz de Cristo.

Rio de Janeiro, 5 de julho de 2024.

Antonio C Fernandes S F